A transformação demográfica da Suécia: de nação homogênea a país multicultural
Em 1950, a Suécia era um dos países etnicamente mais homogêneos do mundo, com cerca de 97% de sua população de origem sueca. Nas décadas seguintes, o país adotou uma das políticas de imigração mais abertas da Europa, recebendo ondas sucessivas de migrantes vindos da Finlândia, dos Balcãs, do Oriente Médio e da África. Somente durante a crise de refugiados de 2015, a Suécia recebeu 163.000 migrantes. Hoje, estima-se que apenas 64% da população seja de origem sueca, uma transformação demográfica de proporções históricas ocorrida em menos de 80 anos.
A questão do crime é uma das mais debatidas nesse contexto, e os dados são complexos e por vezes contraditórios. Segundo uma das pesquisas mais abrangentes sobre o tema, em 2017, 58% das pessoas suspeitas de crimes com base razoável eram migrantes, sendo que nos casos de homicídio e tentativa de homicídio esse número chegou a 73%. Ao mesmo tempo, pesquisadores apontam que fatores socioeconômicos como desemprego, pobreza, exclusão e barreiras de idioma explicam a maior parte das diferenças nas taxas de criminalidade entre imigrantes e nativos. Em outras palavras, o debate não é simples: a correlação existe, mas a causalidade direta com a imigração é contestada pela ciência.
No nível municipal, o cenário também é nuançado. Praticamente todos os municípios suecos registraram taxas de criminalidade violenta mais altas em 2020 do que em 2000. No entanto, um estudo comparativo entre municípios com maior e menor aumento de crimes concluiu que a associação entre a proporção de imigrantes e as taxas de crimes violentos foi fraca e não estatisticamente significativa. Já segundo a vice-comissária nacional da Polícia Sueca, informações de inteligência apontam para a existência de cerca de 40 clãs criminosos étnicos no país, concentrados principalmente em Estocolmo, Gotemburgo e Malmö.
As consequências vão além do crime. O governo sueco reconhece que a imigração extensiva dos últimos anos gerou grandes pressões sobre a sociedade, incluindo o sistema de bem-estar social, as escolas e o mercado de trabalho. Em resposta, a Suécia passou a redirecionar seu foco de país de imigração por asilo para país de imigração por trabalho, buscando atrair especialistas, pesquisadores e talentos estrangeiros que fortaleçam a competitividade nacional. A integração tornou-se prioridade: o domínio do idioma sueco passou a ser visto como condição essencial para a participação plena na sociedade, com requisitos mais rígidos nos cursos de sueco para imigrantes.
O caso sueco é, portanto, um espelho do dilema europeu contemporâneo: como equilibrar abertura humanitária com coesão social? Estudos indicam que imigrantes de primeira e segunda geração apresentam taxas de criminalidade mais altas do que suecos nativos, mas que a segunda geração já registra índices menores do que a primeira — o que sugere que integração bem-sucedida ao longo do tempo pode reduzir disparidades. A Suécia não abandonou seus valores de tolerância, mas aprendeu da maneira mais difícil que receber milhões de pessoas em poucas décadas, sem estrutura adequada de integração, cobra um preço social elevado — e que reconhecer esse fato não é xenofobia, mas responsabilidade política.

Comentários