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A Noruega trocou livros por tablets — e se arrependeu

 

crianças norueguesas

A Noruega enfrenta uma crise educacional que ela mesma reconhece ter contribuído para criar. Em 2016, o município de Oslo decidiu distribuir iPads a crianças a partir dos 5 anos ao entrarem na escola — sem controles parentais e com pouca estrutura pedagógica para o uso dos dispositivos. Livros foram gradualmente substituídos nas salas de aula, e o engajamento dos alunos com a leitura passou a cair de forma consistente.

Os dados do PISA, exame internacional da OCDE aplicado a estudantes de 15 anos, revelam o impacto. A nota norueguesa em leitura caiu de 513 pontos em 2015 — seu pico histórico — para 477 pontos em 2022, ficando praticamente na média da OCDE (476 pontos). A queda foi severa, mas está longe de ser a pior do ranking: o país ficou em torno da 22ª posição entre os 81 países participantes do PISA 2022, bem distante do último lugar. Pesquisadores da Universidade de Oslo alertam ainda que o engajamento com a leitura de livros foi substituído por leitura de telas — e os dados mostram que estudantes que leem em tela têm desempenho muito inferior aos que leem em papel.

A queda, no entanto, não pode ser atribuída exclusivamente aos iPads. O próprio relatório da OCDE aponta que o PISA 2022 registrou o maior declínio global da história em matemática e leitura, amplamente associado aos impactos da pandemia de COVID-19 — e que países como Austrália, Bélgica, Finlândia e Países Baixos também sofreram quedas antes mesmo de 2018. Na Noruega, fatores como maior autonomia pedagógica dos professores e desigualdades estruturais no sistema educacional agravaram o cenário.

A resposta do governo norueguês tem sido intensa. O primeiro-ministro Jonas Gahr Støre prometeu transformar o país no "melhor do mundo em leitura". A principal biblioteca pública de Oslo, com 1.100 lugares, tornou-se um centro de atividades para crianças. Em 2024, as 23 unidades da rede Deichman registraram empréstimo recorde de 2,2 milhões de livros, metade deles para crianças. Programas como o "Boklek" (brincadeira com livros) levam turmas de jardim de infância a bibliotecas locais antes do início do ano letivo.

Em março de 2026, o governo anunciou uma reforma ampla para os alunos mais novos: iPads fora, mais recreio e atividades físicas. O Ministério da Educação chegou a considerar remover "habilidades digitais" dos cinco pilares centrais da educação norueguesa. A ministra Kari Nessa Nordtun declarou que a escola precisa "enxergar a criança por inteiro" e que é preciso "frear" o excesso de tecnologia para os menores. O debate, porém, segue dividido: o Partido Conservador teme que menos horas de aula resultem apenas em mais tempo em creches sem supervisão pedagógica.

A experiência norueguesa serve de alerta global sobre a adoção irrefletida de tecnologia em sala de aula. O caso não é de fracasso absoluto nem de último lugar em ranking algum — as afirmações viralizadas nas redes sociais exageram os dados reais. Mas a queda é real, o diagnóstico é sério, e a Noruega está apostando que o caminho de volta passa, literalmente, pelas páginas de um livro.

Fontes:

OCDE – PISA 2022 Country Note: Norway (dezembro de 2023)

TheGlobalEconomy.com – Norway PISA Reading Scores (2000–2022)

University of Oslo / QUINT – "PISA 2018 results show that reading engagement in Norway is declining" (2019)

The Local Norway – "How Norway plans to transform school life for young children" (março de 2026)

Al Jazeera – "Unprecedented decline in global literacy scores, OECD report says" (dezembro de 2023)

PISA 2022 Worldwide Ranking – Reading (IADB/OECD, 2023)

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