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Rússia corta internet em Moscou como teste de sistema nacional de censura



 Rússia corta internet em Moscou como teste de sistema nacional de censura

A Rússia vem intensificando os testes de um sistema destinado a impedir que milhões de cidadãos acessem informações online em momentos de instabilidade política, tendo interrompido o acesso à internet móvel em Moscou nos últimos dias.

Em Moscou, cidade de 13 milhões de habitantes, os moradores estão há dias sem conseguir fazer pagamentos online ou enviar mensagens a colegas. Passageiros que saem das estações de metrô não conseguem chamar táxi, e — pela primeira vez em anos — são vistos pedindo informações a desconhecidos por não terem acesso a mapas digitais. Quem normalmente trabalha em casa está se refugiando em cafés em busca de conexão Wi-Fi estável.

Nos últimos meses, dezenas de regiões russas ficaram subitamente offline. O Kremlin alega que os bloqueios são necessários para proteger a população de ataques de drones ucranianos que utilizam torres de telefonia celular para navegação.

Especialistas, porém, alertam que o que os russos estão vivenciando na prática é o teste operacional de um sistema nacional — construído com base em métodos aprendidos com o Irã e outros regimes autoritários — para restringir informações e bloquear comunicações em períodos de turbulência.

"É um sistema que vêm tentando construir há anos. Agora, a ameaça dos drones ucranianos oferece uma oportunidade perfeita para testá-lo em escala nacional", afirma Alena Epifanova, especialista em internet russa do Conselho Alemão de Relações Exteriores. "Estão usando isso como pretexto inclusive em regiões que não correm nenhum perigo."

Os bloqueios ganharam ainda mais atenção ao atingir Moscou, cidade que por muito tempo se orgulhou da ampla difusão de seus serviços online. As falhas de conectividade já afetam a vida cotidiana e os negócios.

Moradores relatam que as interrupções mais severas ocorrem justamente nas proximidades do centro de poder do país. "Quanto mais perto do Kremlin, mais restrito fica", contou um engenheiro de TI de 29 anos.

O sistema em teste pela Rússia é o mesmo que o Irã utilizou em janeiro deste ano para tentar sufocar protestos. Teerã bloqueou a internet para impedir a organização popular e o vazamento de informações, ao mesmo tempo em que ativou uma rede paralela construída a custo de bilhões de dólares. Os chamados "SIM cards brancos" garantiram acesso à web para integrantes do regime e VIPs.

Ao longo do último ano, a Rússia vem construindo e testando infraestrutura semelhante. Está sendo elaborada uma lista branca de sites governamentais acessíveis mesmo durante os bloqueios, incluindo portais governamentais, mídia estatal e aplicativos russos como o mensageiro controlado pelo governo, o Max. A iniciativa também mira plataformas como Telegram e WhatsApp, amplamente utilizadas pelos russos. Só nos últimos 12 meses, o país bloqueou ou limitou a velocidade de vários serviços, incluindo esses aplicativos, e obrigou escolas e outros órgãos públicos a adotarem o Max — que, segundo especialistas em tecnologia, não possui criptografia e pode ser facilmente monitorado.

As falhas de conectividade, no entanto, são as que causam impacto mais imediato e abrangente, atingindo dezenas de regiões distribuídas pelos 11 fusos horários do país, inclusive longe do front de batalha. Na Península de Kamchatka — a cerca de 7.200 km da linha de frente e sem histórico de ataques de drones —, o governador regional chegou a publicar uma declaração pedindo a Moscou que levantasse as restrições.

Autoridades da região de Ulyanovsk, no oeste do país, afirmaram em novembro que os bloqueios de dados móveis provavelmente continuarão até o fim da guerra.

Em algumas regiões, farmácias foram obrigadas a fechar por conta da indisponibilidade do sistema de rastreamento de medicamentos. Crianças diabéticas também foram gravemente afetadas: os sensores que monitoram a glicose não conseguem mais enviar alertas aos pais em situações de emergência. Consultas médicas, pedidos de remédios e operações bancárias para envio de dinheiro a parentes idosos ou com deficiência também se tornaram inviáveis.

"Isso está criando uma série de problemas", diz Anastasia Kuznetsova, mãe de dois filhos que mora em São Petersburgo e também sofre com as interrupções. "Lojas, serviços de entrega, táxis e outros serviços básicos estão sendo prejudicados."

Ulyana Sedysheva, mãe de dois filhos que vive nos arredores de Ulyanovsk, conta que durante um bloqueio recente não conseguiu pagar contas, teve dificuldades para atender pedidos de sua loja virtual e seus filhos ficaram sem acesso ao material escolar online necessário para fazer os deveres de casa. Depois disso, ela contratou uma conexão de internet a cabo para minimizar os transtornos.

Em Moscou, moradores descrevem a sensação de estarem sendo empurrados de volta ao passado. Quiosques de café passaram a aceitar apenas dinheiro visto que as maquininhas de pagamento não funcionam, e algumas pessoas chegaram a comprar mapas impressos. O maior varejista online da Rússia registrou alta de 73% nas vendas de walkie-talkies em relação ao mês anterior, segundo o jornal de negócios Kommersant. Os prejuízos para as empresas também são significativos: aplicativos de transporte, serviços de entrega e varejistas foram afetados, e funcionários deixaram de receber mensagens urgentes de seus chefes. De acordo com o Kommersant, cinco dias de bloqueio causaram às empresas moscovitas perdas equivalentes a cerca de 5 bilhões de rublos — aproximadamente US$ 63 milhões. O jornal aponta que a internet móvel responde por 50% a 70% de todo o tráfego de internet na Rússia.

"Na maior parte do país, todos os serviços de internet funcionam normalmente", diz Jonny Tickle, britânico residente em Moscou. "Mas no centro da capital, com o Kremlin à vista, não conseguir nem enviar uma mensagem pelo WhatsApp é completamente contraditório."

Na quarta-feira, o Kremlin defendeu os bloqueios mais recentes em Moscou, mas se recusou a explicar os motivos. "Os cidadãos não devem questionar que a prioridade aqui é garantir a segurança", declarou o porta-voz Dmitry Peskov.

As interrupções de internet representam mais um fardo para os russos, que já enfrentam inflação elevada e pressões econômicas crescentes com a guerra na Ucrânia, agora em seu quarto ano.

Especialistas avaliam que os bloqueios tendem a se tornar ainda mais frequentes. Em fevereiro, o parlamento russo aprovou uma nova lei que obriga as operadoras de telecomunicações a bloquearem o acesso a dados sempre que o FSB — o serviço de inteligência doméstico — assim o solicitar.

WSJ

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