A Allbirds, marca de calçados sustentáveis que um dia foi ídolo do Vale do Silício, anunciou nesta quarta-feira (15) uma virada radical: a empresa assinou um acordo definitivo com um investidor institucional para uma linha de financiamento conversível de US$ 50 milhões, com previsão de fechamento no segundo trimestre de 2026, cujos recursos serão destinados a uma mudança de negócio rumo à infraestrutura de computação para inteligência artificial. A ação (Nasdaq: BIRD) reagiu com força, chegando a disparar mais de 600% durante o pregão.
A empresa, que chegou a valer cerca de US$ 4 bilhões em seu auge, vendeu sua propriedade intelectual e outros ativos há duas semanas por US$ 39 milhões. O novo proprietário da marca e dos ativos, a American Exchange Group, continuará fabricando produtos para os clientes da Allbirds. Com o caixa da venda e o novo financiamento em mãos, a companhia planeja se reinventar sob um novo nome: a NewBird AI, com a ambição de se tornar uma provedora integrada de GPU-as-a-Service e soluções de nuvem voltadas para inteligência artificial.
Inicialmente, a empresa pretende adquirir hardware de computação de alto desempenho e oferecer acesso dedicado aos clientes por meio de contratos de longa duração, mirando empresas, desenvolvedores de IA e organizações de pesquisa que não conseguem garantir capacidade computacional pelos grandes provedores de nuvem.
A mudança de rota ocorre após anos de deterioração financeira. A receita anual da empresa caiu 20% em 2025 e 25% no ano anterior, e a Allbirds fechou todas as suas lojas de preço cheio nos Estados Unidos no início deste ano. O papel acumulava queda de cerca de 99% em relação ao pico histórico. A companhia acumula prejuízo em cada um dos últimos 18 trimestres.
O movimento lembra episódios anteriores do mercado em que empresas em dificuldades se reinventaram ao sabor do tema do momento. Em 2017, a Long Island Iced Tea pivotou para o blockchain, e suas ações subiram cerca de 275% com o rebranding — mas o movimento não prosperou, e a empresa foi retirada da Nasdaq no ano seguinte, quando a febre do bitcoin arrefeceu. Analistas alertam que o salto especulativo da BIRD pode ser igualmente volátil, dado que a viabilidade da nova empresa de IA ainda está por ser comprovada.
A aprovação dos acionistas será necessária em uma assembleia especial marcada para 18 de maio de 2026, tanto para a venda dos ativos de calçados quanto para a conversão das notas conversíveis. A empresa também planeja distribuir um dividendo especial no terceiro trimestre de 2026 aos acionistas, financiado pelos recursos da venda da marca. O mercado aguarda agora para ver se a NewBird AI conseguirá o que a Allbirds de tênis nunca conseguiu: gerar lucro.
