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"Guerra Civil" entre chimpanzés em Uganda intriga cientistas

 

Maior comunidade conhecida da espécie se dividiu em duas facções e trava conflito letal há oito anos

Uma rara e violenta ruptura está ocorrendo nas profundezas da floresta tropical de Uganda. O maior grupo conhecido de chimpanzés do mundo se dividiu em duas facções no Parque Nacional de Kibale, em Uganda, e agora trava um conflito letal — semelhante a uma guerra civil.

O estudo que descreve o fenômeno foi publicado em 9 de abril na revista científica Science e se baseia em três décadas de dados coletados desde 1995 sobre a comunidade de chimpanzés Ngogo — um grupo de cerca de 200 indivíduos.

Uma ruptura a cada 500 anos

Trata-se de um evento extremamente raro: os cientistas estimam que comunidades de chimpanzés se dividem, em média, a cada 500 anos.

Por mais de duas décadas, os chimpanzés Ngogo viveram em paz. Eles caçavam juntos, compartilhavam território e até coordenavam ataques contra grupos rivais externos. Mas essa estabilidade começou a se deteriorar por volta de 2015.

Os grupos começaram a se separar geográfica e socialmente. Em 2017, as duas facções já ocupavam territórios completamente distintos e patrulhavam suas fronteiras contra os rivais. No ano seguinte, a violência letal começou.

O saldo do conflito

Entre 2018 e 2024, os pesquisadores registraram adultos da facção Ocidental matando sete machos e 17 filhotes da facção Central. Outros 14 machos adolescentes ou adultos do grupo Central desapareceram no período — sem sinais de doença — e podem também ter sido vítimas de agressão.

O conflito continua ativo. O pesquisador responsável afirmou que novos ataques foram registrados em 2025 e 2026, após o período coberto pela análise do estudo.

Por que aconteceu?

O líder da pesquisa, Aaron Sandel, antropólogo da Universidade do Texas em Austin, aponta que a ruptura do grupo ocorreu porque os laços sociais se deterioraram. Sandel suspeita que esses vínculos foram fragilizados pelo tamanho incomumente grande do grupo, pela competição por comida e reprodução, por mudanças nos machos-alfa e por doenças que mataram indivíduos que serviam como "pontes" sociais entre os subgrupos.

Um evento semelhante ocorreu no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, na década de 1970, quando a primatologista Jane Goodall observou a separação de um subgrupo e o posterior assassinato de vários de seus membros pelos antigos companheiros. Porém, como os chimpanzés de Gombe eram alimentados por humanos, alguns primatologistas duvidavam que a divisão fosse um comportamento natural.

"Ngogo é a primeira vez que se pode afirmar definitivamente que a guerra civil está de fato acontecendo", disse Sandel.

O que isso diz sobre nós?

A descoberta vai além da primatologia. O trabalho mostra que, mesmo sem etnia, religião ou ideologias políticas, redes sociais podem se fragmentar e levar à violência coletiva.

Uma teoria proeminente sustenta que a guerra nasce de diferenças culturais — como etnia, idioma e religião. Mas se, como os chimpanzés, nossos conflitos se resumem à manutenção de redes sociais cordiais e inclusivas, então esses esforços de paz podem estar perdendo o ponto mais importante: não se trata apenas de aprender sobre a cultura de outros grupos.

Como os chimpanzés são um dos parentes vivos mais próximos dos seres humanos, a descoberta reitera como divisões de grupo podem representar um perigo para as sociedades humanas — mas não significa que o conflito seja biologicamente determinado. "Nosso passado evolutivo não determina nosso futuro", concluiu um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

Fontes: Science, Sandel et al.

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